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A BOCA
 

A boca carnuda estava cerrada sem força. Um pequeno espaço entreaberto entre os lábios mostrava um pouco do branco dos dentes. Eu olhava atento. Ela sorriu. Um riso pacífico. Espichou-se ligeiramente e os dentes apareceram, atrás dos lábios brilhantes e tensos. O branco dos dentes tinha um tom ligeiramente gélido. Sem opacidade nem transparência, algo como a cor pura. Durou pouco a visão. Os lábios retornaram à antiga posição, deixando apenas uma pista, uma fresta.

Mais algum tempo, os lábios começaram a se mover: pareciam marolas de um lago, uma corda vibrando. Dali saíam sons e algumas palavras deveriam estar me dizendo… talvez, mas era muito perceber os sons que partiam dali. Não cheguei a eles, perdi-me na textura da língua, movendo-se e soprando o ar. Me aproximei. Senti as colunas de vento deixando os pulmões, vibrando entre o palato e os dentes. Senti aquele ar como se fosse meu, transformado em palavras.

Álvaro Andrade Garcia

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