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A UTOPIA DA MODERNIDADE CAPITALISTA
 

Este ensaio foi publicado no caderno Idéias do Jornal do Brasil em abril de 1990, antes de tudo isso que andou acontecendo no mundo. É interessante agora, confrontarmos o que imaginávamos que aconteceria e o que de fato ocorreu.
Em toda parte os governos socialistas caem, derrubados pela vontade de mudanças de seus povos. Passados anos em estagnação, o modelo socialista estatal de economia planificada rui como uma seqüência de placas de dominó. Comprovada sua ineficiência, sua opressão sobre os povos e sua inadequação, é substituído por outros regimes políticos e econômicos. De cá e de lá da antiga cortina de ferro, sopra uma cortina de fumaça. Os ufanistas da economia de mercado e da eficiência capitalista ocupam a mídia e, com alarde e insistência, anunciam a morte do modelo socialista. Não se satisfazem em enterrá-lo, aproveitam para glorificar as qualidades do capitalismo ocidental. A opulência dos EUA, a saúde economica do MCE, o milagre japonês e a emergência dos tigres asiáticos. Entre nós, o discurso do choque capitalista, da sua modernidade, resultou no Brasil Novo de Collor. Pensadores e homens públicos se associam na elaboração da nova cartilha do senso comum, aí embutida a promessa de que tempos de abundância virão, se trilharmos o caminho da eficiência capitalista. O principal argumento é o de que o mundo está para se integrar num grande mercado, onde a tecnologia é a pedra de toque da nova organização da produção e da sociedade. Quem estiver fora desse mercado, quem não se mobilizar para ter a tecnologia vai se dar mal: estará para sempre condenado à pobreza.

Os antigos regimes comunistas eram ineficientes e ruíram. Contra os fatos não há argumentos. Essas idéias, na medida em que se confundem com os acontecimentos, são claras e irrefutáveis. Entretanto, gostaria de colocar algumas questões relevantes que estão ficando fora da discussão desse importante fenômeno social. É preciso ousar destoar do coro. As avaliações atuais sobre o que acontece são precoces e não levam em conta possíveis desdobramentos do processo social em curso, que poderão resultar num final infeliz para os novos adeptos da cartilha do livre mercado e da eficiência tecnológica. Estamos ao que tudo indica, substuindo a utopia socialista pela capitalista.

Há indícios de que os países do leste europeu, atualmente tão celebrados, correm o risco de desagregação e de retorno a métodos sociais arcaicos, ao invés de progredirem na direção do eldorado neo capitalista. Neles, o processo de ruína do sistema socialista estatal ocorreu de forma súbita e imprevisível, e já há sinais da instauração de uma nova ordem conservadora, nacionalista, com intolerância racial.

Há uma hierarquia fortemente estabelecida entre os paises capitalistas no plano mundial que não será facilmente quebrada pelos novos postulantes. Polônia, Hungria, Romênia tem chances de não conseguir alcançar a opuléncia das potências ocidentais. Todos não podem de uma só vez exportar como o Japão, não haveria quem comprar. Todos não podem consumir como os EUA, (que esbanja várias vezes mais energia per capita que a Suécia, muito mais fria, e tão rica quanto) o planeta aqueceria! Não será em dez, vinte anos que a alta tecnologia deixará de ser controlada pelos paises mais ricos em seu benefício. Não se faz um MIT, uma Harvard da noite para o dia.

A disseminação da riqueza e da tecnologia para todos os povos de maneira homegênea é uma questão problemática, para não dizer inviável, aos níveis anunciados pela profecia. Por essa razão chamo a atenção para o risco que corremos. Não há pensamentos vigorosos circulando. Há um grande vazio no ideário contemporâneo. Ainda são tímidas as idéias que se desenvolvem em torno de uma nova racionalidade que dê conta da situação humana na diversidade com que se apresenta tanto culturalmente, como economicamente e politicamente nos dias atuais e que tenha capacidade de permitir a estruturação da vida em sociedade de maneira mais competente e digna. Na verdade, a morte do modelo socialista estatal levou à agonia a utopia socialista e seu belo sonho de uma sociedade fraterna, justa e livre. Em seu lugar a realização capitalista aparece como o novo sonho, transformando-se na utopia da riqueza para todos. A seu lado, poucas outras ideologias permanecem, desarticuladas e sob fogo cerrado de sua convincente e crescente hegemonia. A igreja dos pobres, o chamado comunismo cristão é asfixiado pela alta hierarquia da igreja, os movimentos ecologistas perdem seu ímpeto na medida em que a ecologia se transforma num instrumento de propaganda, produção e consumo capitalista. O cidadão desaprendeu a acreditar na sua própria capacidade de imaginar e discernir formas de viver e conviver em harmonia. Isso é terrível pois pode levá-lo a aceitar e a crer em forças antigas e no statu quo, levando-nos a rumos inesperados.

A sereia cantou e atraiu para si centenas de povos que se desiludiram com seus sistemas. O capitalismo, o conservadorismo e o neo liberalismo econômico estão de volta em toda parte. Um efeito cascata imprevisível e incontrolável pode surgir, na medida em que a economia de mercado não consiga satisfazer as novas demandas de consumo elevado. O padrão capitalista de vida se difunde pela midia com imagens esplendorosas da vida nos EUA, Alemanha, França, etc., que, mesmo quando associadas a imagens de grande sofrimento psicológico e marginalidade social dos seres humanos que nelas se apresentam, guardam uma força de atração muito grande, pois o que interessa ao novo publico é a riqueza, o sonho capitalista confundido com a própria modernidade.

Por outro lado, o que se observa no mundo dos novos postulantes à realização capitalista? O que se vê na Polônia? Uma imensa dívida que medidas ortodoxas e capitalistas de ajustes não conseguem sanar. A economia não flui. O governo do Solidariedade mostra toda sua fragilidade, é um pedinte, um mendigo internacional, sujeito ao jogo de poder e de propaganda dos EUA e da URSS. O acirramento dos nacionalismos e da intolerância religiosa nesses paises é um problema para reflexão. A Alemanha, unificada sob a égide dos conservadores, ressucita antigas discussões de fronteira com a Polônia. Húngaros são espancados na Transilvânia, mulheres armênias são imoladas no Azerbaijão. Dificuldades econômicas eclodem em toda parte. Desemprego e inflação fazem seu aparecimento. Nenhum país se aproxima do capitalismo sem se chamuscar. Não se importa um modelo como esse impunemente, sem suas mazelas operacionais.

A riqueza material, mercados punjantes com tecnologias avançadas de fato são elementos que resultam em saúde física e espiritual de um povo? A Nova Zelândia, em 1915, antes da penilicina e dos antibióticos, de todo o avanço técnico de hoje, tinha uma sobrevida média melhor que a dos EUA atualmente. Cuba, com uma renda per capita baixa exibe taxas elevadas alfabetização e de longevidade. Isso serve para mostrar que tecnologia não significa necessariamente ter mais vida. Quanto à felicidade não temos meios para avaliar. Não se pode falar em felicidade per capita dos povos, mas não se pode afirmar categoricamente que o cidadão americano, alemão ou japonês seja mais feliz que outros.

A ruptura da linha de desenvolvimento socialista está repercutindo na América Latina. Governos da nova direita tomam medidas drásticas a favor do mercado e da livre iniciativa na busca do sucesso econômico. Não há tempo a perder. No continente temos ainda uma massa de população analfabeta, passando fome, sem um mínimo, nem mesmo a pobreza digna, que se vê na Europa do leste. Será que a modernização tecnológica e a economia de mercado vão dar um sentido novo à vida dessas pessoas? Tirá-las da miséria é ensiná-las a consumir mais? Que tipo de bem? Quase toda casa de favela tem uma televisão ou geladeira, a miséria acabou? O capitalismo é um sistema social neo darwinista, que prega a concorrência, e gera a seleção dos mais aptos. Como terão mais chances justamente os indivíduos e povos menos aptos? Essas e outras perguntas não estão sendo respondidas.

A eficiência capitalista se mede em fazer mais barato e mais rápido um produto, pela forma continuadamente mais acelerada com que os agentes econômicos promovem a obsoletização gerando e alimentando desejos através da mídia. Será que eficiência não poderia ser avaliada pela capacidade desses mesmos agentes em satisfazer as necessidades materiais essenciais das pessoas sem degradar o meio ambiente e de motivá-las para a felicidade? É importante fazer com que existam mecanismos de controle para evitar a proliferação de setores sociais que parasitem outros sem produzir, como o caso dos enormes exércitos e burocracias estatais e privadas. Não há a menor dúvida quanto a isso. Entretanto é preciso estar atento aos indícios. O culto da tecnologia e do mercado como caminho para a riqueza, bem supremo prometido pela utopia capitalista, associado à falta de idéias vigorosas que ofereçam novas opções ideológicas aos agentes do processo social, pode trazer efeitos inesperados e catastróficos para os povos.

Álvaro Andrade Garcia e Maria Lúcia Andrade Garcia.

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