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ASSASSINATO NO MUSEU SMITHSONIAN,
DE MARGARET TRUMAN
 

Crime Moderno
A justiça abandona o centro da trama na nova literatura policial da filha do ex-presidente americano Truman

Assassinato no Museu Smithsonian, de Margaret Truman
Rio Fundo Editora, 214 p.

Um Museu é um local público que serve como centro de referência cultural, atração obrigatória em passeios turísticos e passatempo para quem não tem o que fazer numa tarde qualquer. Há museus de várias tipos e finalidades: os de cera, de horrores, de história, de som e imagem, de obras de arte e até mesmo de armas de guerra. Agora, segundo a inspiração de Margaret Truman, é a vez de fazer um dos mais importantes deles cenário de crime e mistério, colocando sob suspeita seus habituais frequentadores até que sejam punidos os responsáveis por um assassinato.

A fórmula da autora para homenagear os dedicados ao Smithsonian Institute de Washington foi presenteá-las com a epígrafe do livro e um crime que provoca grande estardalhaço. A vítima é Lewis Tunney, conhecido estudioso da revolução americana, que recebe informaçðes sobre um escândalo prestes a levar o museu dos cadernos de cultura às páginas policiais. Em noite de gala, o pesquisador é assassinado no Smithsonian de forma espetacular, despencando nas imediaçðes do pêndulo de Foucault com uma espada de Thomas Jefferson fincada às costas. No rastro da queda de Tunney, Mrs. Truman deixa ainda uma valiosa medalha desaparecida, um Vice-Presidente de caráter ambíguo, alguns trambiques em alto estilo e um elenco de dezenas de suspeitos ilustres. O leitor de romances policiais vai se sentir à vontade atrás de pistas que expliquem o Assassinato no Museu Smithsonian. A trama envolve especialistas em objetos valiosos e os bastidores da política, com ênfase na atmosfera que encharca o universo dos museus. Como pano de fundo para a intriga, surgem detalhes pitorescos dos primórdios da história americana.

Na obra de Margaret Truman, estamos a anos-luz dos primórdios da literatura policial. O detetive já não conta com a cenografia de bairros pobres, uma ciência apta a colaborar com a máquina rigorosa de raciocínio que tudo esclarece no último capítulo. Se o crime estava em toda parte na novela policial típica do século passado, hoje a ambição ilícita e os negócios escusos se tornaram a própia identidade do real. A narrativa se transpðe aos ambientes de luxo e à cultura refinada em que o criminoso, como o leitor, não chega a se sentir desestimulado em sua arte já que a justiça vence apenas de modo restrito e eventual. Criada na órbita do poder, a filha do ex-Presidente Truman concentra a nossa atenção em personagens que passeiam com requintes psicológicos pelos doze quarteirðes de imponência dos museus do Smithsonian.

Seu personagem principal, o capitão Mac Hanharan, chamado para investigar a morte, tem à frente um quebra cabeças que aos poucos vai se delineando. O capitão é o tipo que se considera chato por ficar perguntando a torto e a direito. Isso abre uma infinidade de diálogos ao longo da narrativa. Além disso, o chefe dos detetives da Polícia Metropolitana mantém algumas características que se tornaram clichê no cinema. Como bom descendente de irlandeses, é teimoso e briguento, só não fazendo jus à fama de beberrão que costuma concluir a tríade de qualidades atribuídas ao sangue irlandês. As manias do personagem figuram entre os acertos do romance. O detetive é metódico, a cozinha sofisticada é seu hobby e via de regra vamos encontrá-lo com um comprimido de Pepsamar entre os dentes. Aliás, é impressionante como anda em moda entre os escritores afligir policiais honestos com úlceras e anti-ácidos.

A trama se torna mais atrativa com a chegada a Washington da ex-noiva do falecido Tunney, Heather Mc Bean. O interesse de Mac Hanrahan pela moça é reforçado pelo fato de que ela guarda a mesma teimosia e a mesma fibra moral como escocesa. A exemplo de heroínas míticas da velha grã bretanha, ela é dura na queda, idealista, casadoira e não se dá assim a qualquer um. Aliás, veio à capital americana para investigar quem de fato tinha interesse na morte do noivo. Como as regras não podem ser alteradas, apesar da atração mútua, a narrativa não é abalada pela efusão amorosa do casal. A trama criminal é portanto o que interessa ao leitor e Mrs. Truman, sua dama.

O livro tem uma narrativa enxuta, de boa qualidade, que por vezes se perde em excesso de conversa fiada. Nada que possa impedir o leitor de manter acesa sua curiosidade de chegar ao final do livro. Utilizando o recurso de omitir do leitor detalhes essenciais à compreensão das cenas que narra, ela faz com que o leitor participe parcialmente delas, desejando correr com as páginas para receber as informaçðes que lhe faltaram anteriormente. Numa trama bem armada ela cria uma infinita possibilidade de desdobramentos ao longo da história e joga elementos para tornar suspeitos praticamente todos os presentes na festa no Smitsonian. O Macguffin – como diria Hitchcock – é muito plausível e as razðes criminosas são bem elaboradas. Muita gente deveria ler o livro para aproveitar a deixa.

Não pude deixar de sentir falta de melhor depuramento na caracterização psicológica de muitos dos personagens considerados suspeitos. Num livro do tipo, ação e mistério é o que importa, mas existe um ingrediente que deve estar em dose certa: os motivos íntimos. Com eles o narrador costura para o leitor a alma dos seus semoventes, ajudando-o a permear a trama. Fui movido também por uma estranha compaixão por alguns vilðes de plantão. Mrs. Truman consegue a proeza de jogar na fogueira ao lado dos verdadeiros criminosos, como quem não quer nada, dois dos piores inimigos atuais da américa moderna: um hispânico e um árabe. Essa pincelada, pitoresca e desnecessária, para uma trama policial passada nos altos escalðes de Washington, apenas serve como um adereço, um aceno emocional, para alguns leitores mais patriotas. Não têm nada a ver com o cenário da capital federal. Nele, antigas máximas continuam valendo. Para a filha do ex-presidente Truman e para a maioria dos americanos, Washington e seus políticos foi e é o lugar da corrupção, sexualidade pervertida, chantagem e futilidade.

Álvaro Andrade Garcia e Delfim Afonso Jr.
16/3/1991

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