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HELENA
 

Estava tonto. Olhava ao redor. Não encontrava um ponto de referência. Por um momento me arrependi de ter ido àquela festa. Senti cansaço. Pensei nas tarefas de domingo. Ri. Não teria muita coisa a fazer. Achei mais fácil preocupar-me com o excesso de vodka. Certamente acordaria com ressaca. Ariel ainda estava a meu lado. Falava e gesticulava muito. Meus olhos não focavam. Eu apenas via manchas coloridas. Ariel voltou a insistir na conversa. Queria que concordasse com ele. Acenei com a cabeça. Certo, estou ouvindo. Falava do seu amor por uma mineira. Ri. Um argentino apaixonado ao meu lado.

No fundo eu sabia o que me incomodava naquele momento. Estava só. Levantei-me. Disse que ia ao banheiro. Não precisava de fato. Apenas queria tomar um pouco de ar. As luzes piscavam. Corri os olhos pelo salão. Vez ou outra conseguia focar alguém. Preferia vislumbrar o lugar, as pessoas, as coisas, sem me preocupar em encontrar algo.

Ela estava encostada na parede, bem na minha frente. Usava um conjunto de saia mini verde e um All Star preto. Não havia reparado. Sorriu para mim. Olhava para os lados, nervosa. Caminhei em sua direção.

Era alta, tinha os cabelos castanhos, uma boca carnuda e sensual. Olhei-a insistentemente. É curioso como as coisas são. Passei direto por ela. Tive vergonha, não há como negar. Fui até a mesa. Tentei conseguir um copo de vodka. Lamentei. Queria vê-la novamente. Conhecer alguém não é fácil, pensei.

Pedi a ela um quadrado do seu chicletes. Ela abru uma dessas caixinhas amarelas minúsculas. Bem, os gestos falaram mais. Dançamos um pouco. Um amigo dela chegou.

Foi logo embora, aborrecido. Quem era? Ninguém sabia. Não perguntei. Assentamos e conversamos sobre coisas banais. Ela talvez se lembre desse instante, em que eu apenas observava os movimentos de sua boca.

Desejei beijá-la. Senti que poderia amá-la pelo resto da vida. E fui vulgar. Ela reagiu. Um homem bêbado num final de festa certamente teria agido assim. Mas ela riu, distante da minha aflição. Os homens são todos iguais.

Era hora de ir. Pediu carona e veio conosco. Seguimos imóveis, um ao lado do outro. Pouco falamos. Alguém reclamou dos buracos no asfalto. Eu apenas desejei que ela sentisse que a amava. Nossos olharas traçaram um risco no espaço. O carro freou. Abri a porta e ela salgou. Na despedida, beijou meus lábios e sorriu estranhamente.

Acordei pensando nela. A cabeça doía. Olhei para a cabeceira. Eram menos que nove da manhã. Precisava vê-la. Vesti a roupa mais bonita que tinha. E fui. O coração ultrapassava meus passos. Havia festa e presságios em mim. Estremeci, quando a campainha soou. Estava diante da sua porta.

– Helena, por favor.

Uma velha me atendeu. Curvou-se um pouco. Empurrou sua franja com as mãos trêmulas. Sua atitude me emocionou. Por detrás do seu corpo, fino e enrugado, vi, numa poltrona, um tapete tecido pela metade e um par de óculos. Depois, no sofá ao lado, duas crianças e uma babá desconfiada.

– Sou eu – respondeu, com uma lágrima nos olhos.

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Álvaro Andrade Garcia

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