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O MELHOR DE MARION ZIMMER BRADLEY
 

Fantasias científico-feministas

Um apanhado de velhos contos da autora das Brumas de Avalon não convence o leitor

O Melhor de Marion Zimmer Bradley, 346 p.
Imago Editora – Rio de Janeiro
O que tenho nas mãos hoje é uma coletânea de contos de ficção científica, trabalhos mais antigos de Marion Zimmer Bradley, que agora vêm a tona, depois do sucesso de As Brumas de Avalon. Na sua maioria, os contos versam sobre os habitantes de Darkover, um universo imaginário criado para o futuro pela autora. Em A Feiticeira Contra-ataca — publicado nesse caderno, na edição de 02 de dezembro de 1989 — já tive oportunidade de colocar algumas das minhas opiniðes sobre seu imaginário futurista, manifesto em A Chegada em Darkover.

Não posso deixar de desanimar o leitor exigente quanto a esses contos. Não dá para acreditar na fúria da ficção científica de Marion Bradley. Seu fascínio pela ciência e tecnologia se esvai ao longo dos textos, sendo transformado em pura magia, projetividade pessoal e revivals do passado. Se a ficção cientifica não se sustenta hoje, num mundo em que a técnica e seu avanço paulatino se encontra em xeque, num mundo inseguro, que prova da incapacidade das soluçðes racionais, como pedir ao leitor ou ao autor que se projete rumo ao futuro? Essa é a grande fratura dessa coletânea de contos: Marion os escreveu entre os anos cinqüenta e os setenta, tornando-se ambígua, oscilando entre o entusiasmo e o desprezo pela técnica. Uma frase dela mesma sintetiza bem essa dualidade: “Escrevo num processador de textos, mas prefiro minha máquina de escrever.”

Para entender um pouco mais das motivaçðes que a levaram a nos contar histórias de outros mundos, eras e galáxias, a autora nos oferece um pouco dela, numa pequena prosa íntima. Marion se abre, numa espécie de prefácio, e nos coloca os infortúnios de sua vida pessoal. Da infância, quando teve o primeiro contato com a revista Weird Tales, à vida em Berkley com um segundo marido, ela nos revela a base de suas crenças sobre a literatura e o mundo. Para Mrs. Bradley, a literatura foi uma forma de sair do isolamento da vida doméstica. “A maioria dessas primeiras histórias texanas refletia uma incípida vida cotidiana a cozinhar, lavar fraldas e arrumar nossas pequenas casas alugadas; e uma vida interior extremamente animada, baseada nos livros que lia e nas pessoas que só conhecia através das revistas.” Sua carreira de escritora é avaliada à luz de seus casamentos: “Não tenho nada de ruim a dizer contra meu primeiro casamento: a solidão compulsória deixou-me entregue a meus próprios recursos e proporcionou-me o lazer para escrever.” “Quando tornei a casar… descobri outra vez que escrever era uma maneira de ficar em casa com as crianças enquanto trabalhava… enquanto as crianças eram pequenas escrevi alguns livros por ano”.

É importante também saber que na sua profissão de fé, ela coloca a base de seus entusiasmos atuais nos direitos guys e da mulher e está convencida que a libertação feminina é o grande acontecimento do século vinte. Por essa razão seus livros e contos enfocam mulheres em primeiro plano e trazem para a narrativa seu mundo pessoal: a meninada não parando de nascer, as dúvidas em relação à anticoncepção, os poderes intuitivos e telepáticos do sexto sentido.

A meu ver o problema principal da autora é que ela não percebe que suas histórias são, na verdade, um maravilhoso pastiche de um certo imaginário aprisionado, contemporâneo e comum: alienofobia, mulheres que deixam de tomar anticoncepcional para ter filhos, querelas familiares, jantares formais, machismo infantil, atividades manuais recreativas como tapeçaria e pintura, ainda que tridimensionais. Nesse universo, a autora soluciona os conflitos excluindo os homens. Seu desejo de exclusão masculina chega ao ponto de num determinado texto, nascerem crianças por partenogênese de mulheres telepatas. Noutro, reaparecem as Amazonas, lá em Darkover. A certa altura, a idolatria da mulher atinge seu apogeu, quando uma personagem deixa claro que existe a semelhança entre as mulheres de todas as galáxias. Ao contrário dos homens, que só podem criar problemas, por sua diversidade, as mulheres são todas iguais pois possuem uma área básica comum: “uma criança é o passaporte para a grande fraternidade feminina do universo”.

A dezenas de séculos adiante, no seu futuro remoto, o meio oeste dos EUA ainda é o melhor lugar para se descer de espaçonave. Será que o mundo não vai mudar? Seria como eleger o Egito de hoje como o lugar mais adequado para reabastecer o Challenger. O que se constata é que Marion sai do presente para viajar num universo previsível. Seu grande barato é esse: os livros são alguma coisa para se viajar sem sair do lugar. Tudo em Darkover é espelhado e previsível. Dai não ser estranho o sucesso de Marion entre um certo público. O poder mental dos seus livros é a ressonância instantânea e total com o universo de muitas das suas leitoras.

Se tem alguma coisa que gosto nessa turma que vive num universo em que “as pessoas não mudam” mas “…as civilizaçðes mudam” é uma certa busca que foi muito comum na década de setenta. Os personagens querem um pouco de um mundo mais natural e feliz. Diversos dos contos criam situaçðes conflitantes para viajantes espaciais, que tem seus valores tecnológicos questionados por vidas mais rústicas com a promessa de oferecerem uma qualidade melhor. Nada além do que acontecia na época, é certo, mas não posso só viver de ressentimento por ser homem. Por vezes a leitura de seus textos chega a ser agradável. Em alguns trechos ela consegue ser muito imaginosa. Pela data da maioria dos contos – entre 1950 e 1970 -, ela tinha boas antecipaçðes em relação aos desenvolvimentos científicos de agora, como bebes de proveta e outros. Mas o seu forte são as situaçðes imaginárias que cria, revertendo expectativas. Bons exemplos disso se encontram em As Crianças de Centaurus, A Máquina, Espaço Amplo e O Sangue Fala Mais Alto.

Eu, cá com meus botões, estou torcendo para a isca pegar. Infelizmente não posso entrar no clube de mães e tenho que me contentar em ficar de fora. Apesar disso, o livro é uma tentativa válida de bolinar o mercado para ver se ele fisga o reino de Darkover como fez com o de Avalon. Afinal, os editores e muitas moçoilas e senhoras, ainda prisioneiras das novelas de cavalaria e do mundo masculino, vão poder ter mais um passaporte para penetrar no futuro de Darkover. A coleção completa chega mesmo a competir com Avalon em número de páginas e peripécias. Vamos aguardar, vamos ver no que vai dar tudo isso.

Álvaro Andrade Garcia e Delfim Afonso Jr.
23/3/1991

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