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O TEATRO DO CARNICEIRO,
DE JONATHAN KELLERMAN
 

Arabescos Criminais

Requintes narrativos e sutilezas psicológicas Na descrição de uma caçada humana em Jerusalém

O Teatro de Carniceiro, de Jonathan Kellerman. Tradução de A. B. Pinheiro de Lemos. Record, 544p.

Histórias com as de O Teatro do Carniceiro fazem pensar nos rumos da narrativas contemporânea. As frases bem arrumadas da literatura comercial trazem um conforto e um fluxo de sensações caracteristicos. Pretendem grudar os olhos e a imaginação do leitor aos percalços da trama pronta para consumo. O trabalho do narrador se reduz a tornar atraentes e verossímeis os acontecimentos em relação à lógica dos personagens. Os leitores provavelmente não se propõem questões desse tipo. Mas afinal de contas, todas essas histórias não foram lidas antes? As grandes tiragens invadem as lojas e prateleiras de livros atrás de um tipo de consumidor apto a reconhecer certos autores, enredos e tonalidades morais. Em O Teatro do Carniceiro não ficamos fora do círculo impiedoso das histórias de sucesso. É prato cheio para os aficionados de emoções fortes, arabescos psicológicos e finais previstos.

Kellerman escolhe um daqueles dois e três lugares típicos no cenário internacional para ambientação de seu thriller. Em Jerusalém, um maníaco sexual inicia uma série de assassinatos de moças árabes. Os policiais israelenses, comandados por Daniel Sharavi, montam, uma investigação sigilosa e obsessiva para impedir que os crimes venham a tornar insuportável a tensão entre judeus e árabes. Jogando com o caleidoscópio das várias etnias, o autor nos leva a percorrer as vielas da cidade em que fantasmas de passado histórico assediam a cabeça dos personagens.

O cerco ao assassino faz o polícia desconfiar de muitos falsos culpados, mexe com a crise de consciência dos israelitas e palestinos, para chegar a um de alta intensidade dramática. Kellerman capricha na diversidade de estímulos que leva aos leitores de best sellers. O criminoso se esconde sob o ardil de falsas identidades, enquanto agentes terroristas da OLP preparam ações explosivas em Jerusalém. Não faltam o manto de neutralidade da ONU ao lado dos serviços de assistência social prestados por religiosos católicos. Para completar, umas pitadas de neonazismo e os desvios sexuais de um psicopata.

O imaginário do fim do século não ainda saturado apenas de preocupação delirantes com o futuro. Além da ligação com as sofisticadas técnicas de mídia, da vivência da simultaniedade dos acontecimentos internacionais, estamos sob o signo da violência.

Em meio aos objetos confortáveis de contemporaneidade, sobrevive a marca do horror. Pode-se perguntar: horror de que? Jonathan Kellerman dá um exemplo, à própria revelia, da sensibilidade com que sintonizamos o dia-a-dia na era da mídia. Daniel Sharavi é o homem de princípio que um belo dia se transforma de caçador em caça do assassina. Ele procura resolver o caso do homem cinzento, mas é apanhado na contra-mão de sua corrida ao enigma.

O maníaco sexual está mais próximo dele próprio, Sharavi, do que pensa, e ira ameaçar o circulo familiar do policial. O que ele descobre é mais bizarro e doentio do que supunha. Animais e seres vivos podem servir ao gozo de um tarado por facas e rituais de dissecação de vísceras. Kellerman dá algumas pistas, com que piscadelas de olho para o leitor, de canário neonazista em que mora o criminoso não passa de grosseiro efeito teatral. Algo que não é para se levar a sério. Resta o enigma que amarra o leitor às quinhetas e tantas páginas, cujo o conteúdo é a banalidade do consumo prazeiroso da maldade.

Em livros desse tipo, o drama social de povos que se autodestroem no oriente não vale quase nada. Tudo se reduz a curtição da violência ao som de cubos de gelo que tilintam no copo de uísque. O final feliz, como simulacro de qualquer coisa menos ruim, sempre chegam para personagens e leitores em busca de emoções esquisitas.

Num diário entre o encucado herói e seu pai, este lhe diz que sua atividade como investigador também é uma arte. E enfatiza: não se esqueça disso. Kellerman, o autor, soube acolher o recado de seu personagem. A estrutura narrativa de O Teatro do Carniceiro é mais sofisticada que a maioria do que se pública no mercado. Dividido em três partes, o livro não economiza a inserção de personagens e histórias paralelas. As nuanças biográficas dos homens da equipe de Daniel Sharavi também páginas e até capítulos do texto. O uso dos flashbacks dá consistência às interpolações que atravessam a linear caçada ao assassino. O inferno psicológico do criminoso é relatado com requinte e arte, como recomendava o pai de Sharavi

Se emagrecesse o texto de situação e personagens, o forte do livro continuaria a ser a trabalhada reconstituição do labirinto psicológico em que se debate o assassino. O problema é que essas filigranas apenas confirmam que a literatura de massa está em sintonia com o espirito do tempo. Como se não bastasse assistir aos telejornais, os leitores se dispõem a abrir o livro e imaginar em minúcias o reino da barbarie e dá perversidade. Isso pode virar moda, o que se confirma na ousadia das mil páginas (ainda sem tradução no Brasil) do último livro de Stephen King.

A literatura comercial, como se vê, não vive maiores problemas. O mercado não se esgota nos países de língua culta e vai além das páginas de gossips intelectuais do New York review of books. Em O Teatro do Carniceiro continua em alta a velha regra da narrativa herdada do século passado. A trama deve ser clara, passar a impressão de que segue uma linha reta e naturalmente fluida. O autor deve Ter competência para recriar os ambientes e as circunstâncias. E mais: o leitor deve ser afagado em suas convicções de que toda causa correspondem a um leque de efeitos a serem desvendados. Nada mal para a faixa do público que prefere a verdade do contador de histórias à sua própria visão da trama. Joseph Kellerman traz como novidade o embaralhamento dos costumeiros maneirismo estilísticos do gênero best seller. Para quem gosta, há um glossário de palavras e expressões em hebraico e árabe. É a fase culta desse tipo de livro. A evocação dos cenários de Jerusalém e os capítulos psicologia do assassino forem o alibi de que ouve uma pesquisa para criar O Teatro do Carniceiro. Os clichês e a leitura pelo facilitário estão ao leitor. A gratuidade do ato de ler traduz o tédio a que chegou o maneirismo estilístico da literatura comercial. Nem o acabamento industrial do produto, nem o bata-palminha da crítica norte-americana validam qualquer baboseira. Afinal, qual é mesmo o lugar da literatura nos dias de hoje?

Álvaro Andrade Garcia e Delfim Afonso Jr.
26/5/1990

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