COMPARTILHAR
O TRONCO NEGRO DO FARAÓ
 

O Tronco Negro do Faraó
Publicado no livro Messias de um homem só, jornal Dez Faces, edição 4, 2007

Manoel Torre, que não sabia ler nem escrever – o homem, sem embargo, com a maior cultura no sangue, como dizia Garcia Lorca – , tinha sua própria filosofia sobre o canto.” 

Em uma ocasião ele disse a um que cantava:

Tu tens voz, tu sabes os estilos, mas não triunfarás nunca, por que tu não tens o duende. E no canto jondo há sempre que buscá-lo, até encontrá-lo, é o tronco negro do faraó.”

Garcia Lorca em pessoa nos descreve:

Então a Ninha de los Peines se levantou como uma louca, tronchada como uma chorona medieval e bebeu de um trago um grande vaso de cazalla, como fogo, e se sentou a cantar sem voz, sem alento…, com a garganta abrasada, mas…
com duende.

Havia logrado matar todo o andamento da canção para dar vez a um duende furioso e abrasador, amigo dos ventos carregados de areia… A Ninha de los Peines teve que desbarrar sua voz, por que sabia que a estavam ouvindo gente ‘esquisita’, que não pedia formas, e sim tutano de formas… E ela teve que se empobrecer de faculdades e seguranças, é dizer, teve que afastar sua musa e quedar-se desamparada… E como cantou! Sua voz já não julgava, sua voz era um jorro de sangue, digna por seu trabalho e sinceridade…”

Sordera de Jerez, um cigano que canta como os anjos… nos diz que o duende é uma coisa que se leva dentro. ‘Eso no lo conoce nadie, eso tiene que nasé de la persona…’ E se pode cantar sem que isso lhe ocorra? ‘Hombre, claro que canto sin que me ocurra eso’, não tenho remédio além de cantar, pois canto… mas quando me sinto a gosto, se me saltam as lágrimas cantando, por que ponho o coração… aí não penso se estou bem ou se estou mal, canto ao meu ar, ao que me sai.*

* Tradução livre de trechos de El Cante Flamenco, Ángel Álvarez Caballero, Alianza Editorial, Madrid, 1994

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *