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O ÚLTIMO A SAIR APAGUE A LUZ
 

publicada em www.paralelos.org.br

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– Sou o segundo da fila e estou vendendo o meu lugar.

Foi a primeira coisa que ouvi. Já estava há algum tempo na fila. Escolhendo entre o frio da madrugada e as coceiras na bunda, assentada sobre uma calçada em destroços. A fila já estava dobrando o quarteirão quando cheguei.

Mal o dia raiava e o cheiro de café passado, o bafo de Derby no rosto. Os murmúrios de meus confilanos. Acostumado à argúcia do ouvido, logo apanhei café no sul de minas. Era fácil ser lavrador, porteiro, um estudante que não passa em nenhum vestibular. Com bebê de colo, homem mulher e jovem e velho. Todos na fila pra deixar o Brasil. Tinha gente de toda parte. Querendo sair daqui pra trabalhar.

Nos Estados Unidos dá dinheiro enfeitar defunto, e o melhor é que não precisa falar a língua. Alguém tem um esquema em Berlim, estão precisando de eletricistas no Iraque, se é dentista vai pra Portugal, agora é que tá bom no Canadá, em Londres é mais fácil ficar. Ou era, até esses atentados.

– Cheguei às duas da madrugada, e por 30 reais eu vendo o meu lugar na fila, voltou a gritar o vendedor de lugares na fila, olhando para os lados e esperando as reações, que foram as mais diversas. O confila logo adiante se entusiasmou, deu uma baforada no cigarro e disse à mulher:

– Pegar essa fila e ganhar 30 paus no final? Eu topava até levar cacete todo dia se conseguisse esse dinheiro.

A maioria discordava da atitude do espertalhão, mas ninguém faria nada se ele não ‘atrapalhasse’.

– Desde que não venda o lugar pra mais de um, não tenho nada com isso.

Sei que ele acabou conseguindo vender dois lugares, ao que parece duas mulheres apressadas. A gente nunca sabe, nem vê. Foi só um zumzumzum que percorreu a fila, àquela altura já tendendo para um certo caos. Missão cumprida, pegou sua cadeirinha, sombrinha, colchonete e se dirigiu para o ponto de ônibus. Voltava pra casa com 60 paus no bolso.

Do outro lado da rua, o sorridente despachante neném tinha investido pesado no visual do seu negócio. O muro do lote vago havia sido recentemente pintado. Era ao mesmo tempo muro, outdoor, placa e portaria de estabelecimento comercial. Só não dava pra acusar de pichação, isso não, tava muito bem organizado. Apertando os olhos pra fugir do branco de cal, dava pra ver que saltavam as letras:

NENÉM DESPACHANTE

Afobado e solícito, ele apertava passos de um lado a outro da sua ‘banca’. Percorria a fila de cabo a rabo exibindo seus conhecimentos profissionais, tem que preencher tudo com letra de forma senão eles não aceitam, tem que ter o documento de reservista, você não tem ou não cumpriu serviço militar?, tem que pagar a guia antes de chegar lá, vai lá na loteca que eles imprimem a guia por três reais e recebem o pagamento, abre às seis e meia da manhã.

Organizado por Neném, sai um grupo rumo à loteca, que deve boa parte de seus rendimentos ao fato de ser vizinha da Polícia Federal. E assim transcorria a madrugada, com Neném passando em revista seus confilas, orientando os desorientados, prestando mesmo um serviço público. Os mais encrencados viravam clientes e eram encaminhados para a mesinha, onde poderiam preencher seus formulários com todo conforto.

Neném era um negro alto e forte, olhos vivos, vozeirão de pagodeiro, touca de croché enfiada na cabeça. Com todos os sentidos em estado de alarme constante, percorria a fila e seus arredores, voltava-se para a banca, observava oportunidades e acontecimentos, conferia tudo. Na verdade, aquela fila era dele, tava em casa. Por isso, tinha que botar moral de vez em quando, fazer o quê.

E de tempos em tempos vinham os simpáticos ‘posso deixar com você’: eram as ‘agências’ oferecendo palestras sobre Portugal, Inglaterra, como obter vistos para os Estados Unidos, pechinchas e esquemas de toda sorte. Outros davam consultoria grátis, como a empregada doméstica que contava com orgulho e riqueza de detalhes a sua deportação.

– A gente sofre muito, mas vale a pena. Ficar aqui é que não dá, já não agüento mais patroa com pinta de madame, que na hora de pagar só libera ninharia.

O vendedor de lugares na fila já havia recolhido suas coisas e estava chegando à esquina. Seu carrinho de mercearia deslizava suave sobre o asfalto, carregando seus instrumentos de trabalho – cadeira de praia, guarda-sol, cobertor, garrafinha d’água e garrafa de café–, enquanto os murmúrios da fila davam conta do sucesso da operação.

O sucesso foi tanto que logo chegou aos ouvidos de Neném.

Os gestos rápidos e seus passos de um lado a outro prenunciavam o barraco. Porque Neném de alguma maneira é o dono daquela rua. E ali ele não quer esse tipo de negócio. O dele ia bem, assim como o dos parentes. Dois sobrinhos se revezam na tomada de conta dos carros, os filhos preenchem guias, a cunhada e seus filhos vendem água e café. Ele até tolerava as ‘agências’, mas espaço pra vendedores de lugar, isso ele não admitia na sua fila. Ainda mais como estava acontecendo, era um 171 dos mais abomináveis. O cara fez uma venda ‘dois em um’ e nada aconteceu.

A fila ficou de lado por alguns minutos. Neném correu até a esquina e parou logo na frente do franzino vendedor de lugares. Neném estendeu os braços para frente, eram do tamanho das minhas pernas, e travou o cidadão. Foi logo esculhambando:

Hoje tinha deixado, mas amanhã quebrava tudo. O homem assustado ainda esboçou reação. Começou a falar, mas Neném não se intimidou. Apontou o dedo exaltado, repetiu o que havia dito e começou a chutar a cadeira do vendedor de lugares. Depois de chutar o conjunto umas cinco vezes, Neném empurrou o estranho rua abaixo, enquanto vociferava: é pra não voltar, sumir, foi só hoje, amanhã o papo é outro.

A platéia reagiu estranhamente. Foi paradoxal. Muita gente ficou com pena do vendedor de lugares. Que desceu a rua e dobrou a esquina recurvando-se, apesar de esguio. Com semblante amargurado, ele sabia que amanhã enfrentaria outra fila…

O dia amanheceu e ainda faltavam duas horas pra começar o expediente. Foi quando um sorridente vigia de uniforme engomado nos disse:

– Maiores de 60 pra frente, vocês não precisam enfrentar a fila. Os primeiros 200 serão atendidos. Se alguém estiver furando ou guardando fila, vocês tem que resolver isso entre vocês mesmos, entenderam? O importante é que enquanto esperam, não saiam da fila nem causem tumulto. Lembrem-se: estamos na Polícia Federal.

E por acaso, naquele dia estava ocorrendo a posse dos novos cadetes da força. Aqueles que suaram nos concursos e conseguiram um bom emprego. O hino nacional tocava, enquanto um a um subiam no parlatório e prometiam dar a própria vida para manter a lei e a ordem na pátria. O dia estava ensolarado e os raybans estavam perfilados, refletindo distintivos.

Vez ou outra, agentes à paisana passavam entre nós com pistolas nove mms enfiadas na calça. Nos olhavam atentamente, enquanto vigiavam toda a cena. É óbvio que devia ter muita gente a fim de matar alguém ali. Mas eu sempre pensei em armas mais recatadas com tiras federais. Podiam ser como seus colegas do FBI, uma elegante capanga de couro acessada apenas na hora H.

Os caras estavam tensos porque era também o dia marcado para o depoimento da secretária famosa, aquela que estava revelando os segredos do homem da mala. E isso explicava o outro lado da rua: a fila estava andando, e já bem próximo do portão de acesso ao prédio, uma multidão de fotógrafos e cinegrafistas montava guarda na contra-calçada. Aquele exército de teleobjetivas, jaquetas e repórteres se retocando. As câmeras apontavam para a fila, mas eles não nos viam, perdiam a pauta ‘off’ do dia. Muitos mal tinham acordado e a manchete de amanhã poderia aparecer a qualquer momento.

Não cheguei a vê-la. A fila se desenrolou e atravessamos o pátio interno lentamente, contemplando a carreta do assalto ao Banco Central, entre os mais recentes ônibus apreendidos com sacoleiros que vinham do Paraguai.

Faltava pouco para o passaporte. Mas os últimos momentos não deixariam de ser eletrizantes.

Atrás da porta de vidro, junto a um longo aviso que listava todos os indispensáveis documentos da via sacra do passaporte, estava ela, o último obstáculo a ser vencido na conquista da cobiçada senha. Ela, a funcionária da polícia federal: honrando a linhagem das mulheres valentonas, ela também tinha quilos de maquiagem e jóias e se equilibrava em saltos estratosféricos, meia-idade estilo pantera, silicone sem miséria, cabelo visual muro-de-arrimo, muito perfume francês pra enfrentar o nível de tensão da fila.

Depois de esgotar o assunto de meus confilanos, ficava pensando na vida dela, todo dia ali de cara com a diáspora brasileira, aquela ralé que lhe dava irc. Só sei que já estava bem diante dela quando os dizeres do cartaz elevaram o meu nível de tensão:

Em todos os guichês, ao lado de cada funcionário, um aviso em letras garrafais: “DESACATO A FUNCIONÁRIO PÚBLICO É CRIME PREVISTO EM LEI, SUJEITO A DOIS ANOS DE DETENÇÃO”.

– Só por isso me segurei pra não dar um soco na cara dela!, bradou a estudante que atravessava pela terceira vez o calvário da fila do passaporte brasileiro.

– Sem o comprovante da última votação, você não pode fazer o passaporte. Volte outro dia.

Respirei fundo. Olhei pra ela, tentando ser simpático e impessoal. Minha hora havia chegado. Me concentrei no que fazia.

– Bom dia, aqui estão os meus documentos.

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Álvaro Andrade Garcia

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