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POESIA E TECNOLOGIA
 

versão 1: 1994

Se dependesse do senso comum, poesia e tecnologia seriam palavras que jamais estariam próximas. A primeira, associada ao espaço da manipulação da linguagem, das formas de expressão do intelecto e dos afetos, estaria em contraposição à segunda, ligada à utilização de equipamentos e procedimentos produzidos a partir de referências científicas e de alto grau de acumulação de capital. Para muitos, a poesia deveria manter-se imaculada, confinada a um espaço de resistência face aos avanços tecnológicos. Entretanto, o que ocorre na prática é que a poesia não resiste a eles ou simplesmente os aceita. Ela os incorpora e gera novos sentidos.

Sempre houve interação entre a poesia e a tecnologia de um determinado tempo. Os poetas, quase sem exceção, produzem e reproduzem suas obras, valendo-se de opções que o desenvolvimento tecnológico lhes oferece. Aos que defendem o livro como a forma mais pura de veiculação literária, bastaria lembrar que a imprensa e as artes gráficas são tecnologias que surgiram e evoluíram recentemente. A máquina de escrever, por exemplo, causou polêmica no cenário da literatura; hoje, é considerada um instrumento natural para se escrever. A caneta, utilizada ainda pelos que resistem às máquinas, sofreu inúmeras modificações tecnológicas. A voz ou a declamação poética, que é talvez a manifestação primeira da literatura, também se aproximou da tecnologia pela apropriação de recursos a serviço das artes dramáticas, como microfones, amplificadores, equalizadores de som e equipamentos de iluminação.

Não quero buscar aqui o início ou o fim desses processos. O interessante seria saber o que acontece hoje no cenário da poesia. É praticamente impossível querer definir um papel para ela ou mantê-la isolada do rumo dos acontecimentos. Uma das características mais marcantes de sua manifestação é seu caráter lúdico e experimental. A poesia é uma atividade gratuita. O poeta é um indivíduo curioso, que busca no mundo sua matéria e lança mão nos espaços da imaginação de conceitos e signos, da visualidade e da sonoridade das palavras. Nesse vasto e diverso campo de atuação, ele tem se valido de instrumentos que a técnica introduziu recentemente.

Desses, talvez o que tem causado maior repercussão seja o computador. A partir da tradução de signos para a linguagem digital e de sua manipulação, surgem novas possibilidades de criação e veiculação de obras poéticas. Hoje, um texto pode ter uma versão impressa a laser ou off-set, em disco magnético ou fita cassete ou de vídeo. Numa recriação visual, o texto pode ser trabalhado em computação gráfica ou holografia. Ou, ainda, reinterpretado de diversas maneiras: musicado, transcodificado e sintetizado, distribuído pela linha telefônica, pelo fax, ou pela televisão.

Além de abrir novas perspectivas e remodelar formas antigas de veiculação e criação poética, a informática tem permitido a integração cada vez maior das artes. A transformação dos signos em códigos binários passíveis de serem processados e transladados, aproxima ainda mais a poesia de outras manifestações artísticas, como as artes plásticas, o teatro e a música. A poesia é um gênero literário que tem predisposição e possibilidades estruturais para se integrar de maneira adequada a outros contextos.

Os equipamentos e softwares que podem ser utilizados por poetas –computadores, equipamentos eletrônicos de áudio, vídeo e editoração – têm seus preços cada vez mais baixos e os procedimentos ligados à sua utilização têm se difundido e banalizado. Os custos de produção e veiculação de objetos culturais têm caído com a incorporação da tecnologia. Tudo isso contribui para acelerar o processo de apropriação e redirecionamento da tecnologia. Surge o desvio poético no panorama da sociedade, ou como já salientou Delfim Afonso Jr.:”aparecem os atalhos para o imaginário”.

Álvaro Andrade Garcia

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