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REVOLUÇÃO DIGITAL E LITERATURA: NOVAS RELAÇÕES ENTRE LEITURA, ESCRITA E AUTORIA
 

Revolução digital e literatura: novas relações entre leitura, escrita e autoria

Texto publicado em
http://www.goethe.de/ins/br/lp/kul/dub/lit/pt8457823.htm

No mundo dos aplicativos e dos tablets, escritores e leitores criam novas formas de relação com a literatura. Sem querer anunciar o fim do livro-texto ou da prosa longa, está claro que “ler e escrever” ganham novos significados.

São muitas as questões inspiradas pela revolução digital em curso nas últimas décadas. No mundo da literatura, as alterações trazidas pelas novas tecnologias atingiram primeiro o plano da produção do texto, ou seja, da escrita. Escrever no teclado é hoje algo praticamente considerado uma “segunda natureza”, tanto que em algumas regiões dos Estados Unidos o ensino da letra cursiva está em vias de extinção, com sua substituição nas escolas pela aula de digitação.

Se o teclado substitui a caneta, com o avanço dos laptops e com o aumento de conteúdos disponíveis na internet, a leitura em telas passou a fazer parte do nosso cotidiano, roubando-nos o tempo dedicado aos livros em papel, ao mesmo tempo em que a leitura passa por transformações e sofre a concorrência direta de outras atrações midiáticas cada vez mais presentes nos computadores.

Cenário brasileiro

No Brasil, apesar de nossos baixos índices de leitura, assistimos a uma rápida e poderosa expansão do número de computadores e do conteúdo disponível de textos na rede, especialmente em português. O país ocupa a terceira posição mundial em venda de computadores, abaixo apenas dos EUA e da China, sendo a metade de notebooks. Temos hoje 74 milhões de pessoas conectadas na internet. Para um país que tem poucas livrarias, considerando seu número de habitantes, essa notícia ganha importância maior que em outros lugares do mundo.

Os tablets também se aproximam gradualmente, embora, enquanto nos EUA 10% da população adulta já tem um leitor digital, no Brasil sua presença nas ruas ainda é tímida. A banalização em curso desse tipo de equipamento é, contudo, óbvia. Serve como exemplo a estratégia de marketing de uma das principais revistas do Brasil, que oferece um tablet a quem assinar a publicação. Há escolas e universidades fazendo o mesmo para aqueles que se matriculam.

Livro: objeto de desejo

Enquanto os limites ecológicos ligados à indústria do papel tornam os livros cada vez mais caros, no meio digital ocorre o contrário, com equipamentos tendencialmente mais baratos, capacidade de armazenamento maior e menor consumo de energia. Ou seja, a migração de boa parte do papel para o digital é inevitável. Um veredicto que não implica em querer decretar o fim dos livros “convencionais”, que provavelmente se transformarão num nicho de mercado, com espaço para produções especiais e elaboradas.

É provável que livro em papel se torne um objeto de desejo, apto a sobreviver em publicações de obras que tenham na plasticidade um elemento fundante, como nas edições de arte. Em outros setores é provável que o papel seja totalmente substituído. A Coreia do Sul, por exemplo, terá todos os seus livros didáticos editados em tablets já no ano de 2014.

Fronteiras desfeitas e indefinição de novos limites

No entanto, o digital transforma a leitura e a escrita de uma forma muito mais profunda do que pela simples substituição das gráficas e do papel: ele muda nosso entendimento do que seja “ler e escrever”. Num futuro próximo, teremos novas formas de expressão e novos lugares para a literatura, que por sua vez vai se transformar e se recompor em combinações com outras formas de arte.

Vivemos uma época onde as fronteiras conhecidas estão sendo desfeitas, os contornos estão borrados e novos limites ainda não estão definidos. Mas creio que existirão e serão cada vez mais específicos: cada obra e cada conteúdo exigirá muito mais de autores e editores, uma vez que os recursos disponíveis para materializá-los aumentam em número e complexidade.

Interseção com outras linguagens

Se antes baixávamos um livro em formato e-book ou pdf, agora temos os apps para termos o mesmo material nos tablets. Um app é um software. O que ele pode conter? Praticamente tudo. Textos falados, escritos, imagens, sons, interações em diversas camadas. Nós, escritores, seremos estimulados a trabalhar próximos àqueles que conhecem outras linguagens com mais profundidade. O que não elimina o livro-texto ou a prosa longa, e sim traz a possibilidade de fazermos obras novas em termos de expressões artísticas.

Provavelmente, em poucos anos teremos novo tratamento para algumas obras em papel, que atingirão certa aura de preciosidade e serão produzidas em tiragens reduzidas e exclusivas, tornando-se objetos remanescentes do passado, como hoje ocorre com os discos em vinil. Mas o que mais empolga é ver surgir novos formatos para as obras literárias, que são escritas e lidas simultaneamente online, se integram ao audiovisual e podem ser lidas por comunidades, que também participam dos seus desdobramentos enviando conteúdos e feedback.

Chamo os livros eletrônicos de “livres” justamente por trazerem em sua constituição a capacidade de agregar novas características ainda pouco exploradas, como crescimento rizomático, animação, criação de novas linguagens e interatividades muito mais sofisticadas que as atuais. Um cenário tão movimentado quanto confuso, no qual cabe a escritores, artistas, editores, jornalistas e produtores culturais desvendar as novas possibilidades e fazer as escolhas certas.

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