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TEXTO BASE DA APRESENTAÇÃO DE ÁLVARO GARCIA NO E-POETRY 2015
 

Grão é meu primeiro e último trabalho de poesia digital, e me consumiu 30 anos. Comecei a pensar no poema quando larguei a medicina para me dedicar à poesia e me dei de presente um curso, que incluía música, línguas, linguística e a leitura assídua de outros autores. Logo tive contato com o chinês e a ideografia, que fascinava gente como Serguei Eisenstein no cinema, Ezra Pound e Ernest Fenollosa na poesia. O livro The Chinese Writen Character as a Medium for Poetry me influenciou assim como a Haroldo de Campos que difundiu essas idéias no Brasil. Uma língua que grafava visualidades em contraste com a nossa que grafa sons, a etimologia visual e a etimologia sonora, o sânscrito e as línguas indoeuropéias, as diferentes gramáticas de diferentes línguas.

Na época me fascinou um poema usado com exemplo da gramática chinesa, onde um autor descreve uma cena campestre sem sabermos o ‘quem’ e o ‘quando’ da cena. E aí descubro que em chinês o tempo, a pessoa e o gênero da fala não são tão relevantes quanto para nós falantes indoeuropeus, que grudamos nos verbos essas informações. Resolvi então escrever uma cosmogonia com características desse tipo de gramática.

De início pensei em fazer fluxos de semas retirando deles os sufixos e prefixos substituindo-os por sons que poderia manipular para fazer rimas e combinações. Pensei em trocar os ‘os’ e ‘as’, por exemplo, por ‘es’ e ‘is’ do italiano, e recriar as finalizações dos verbos livremente para destruir a noção de temporalidade, pessoa e gênero. Esses sons em português nos remeteriam ao latim, e de alguma maneira uma sonoridade relacionada à religiosidade que me interessava.

E comecei a colecionar semas e a ler cosmogonias em várias religiões e lendas indígenas, enquanto paralelamente meu trabalho poético ia tomando seu rumo.

Na década de oitenta, sincronicamente com os  Campos, com Wilton Azevedo, Philadelpho Menezes e Julio Plaza, eu publicava com autores de Minas Gerais videopoemas usando pc xts em telas de 320×240 pixels e 4 cores simultâneas. Daí me tornei diretor de audivisual, roteirista e finalmente diretor de multimídia, produzindo um grande número de títulos publicados em cd roms, dvds, sites internet, exibidos em televisão, rádio, cartazes em ônibus, livros impressos etc. Meu trabalho poético digital passou a gravitar em torno de um site chamado Sìtio de Imaginação onde evoluimos a interatividade e animação usando action script, a linguagem de programação do Flash.

E foi aí que Grão amadureceu. Decidi que a cosmogonia seria escrita com semas substantivados, no singular, mantendo as terminações mais simples possíveis em português, sem conectores, com um fraseado e exibição na tela sincrônico com ideogramas, sons e imagens também ancestrais, animados e com interação programada em um software livre que criamos a partir da nossa experiência com o Sítio de Imaginação e outros audiovisuais interativos que dirigi.

Em Grão, muitas vezes usei palavras de outras línguas como o sânscrito e o inglês para mostrar essa força transversal dos sons primordiais e imaginei que esse fluxo poderia ser entendido por falantes de diversas línguas, ajudados também pelo conjunto de imagens e sons que se compõe com os textos. Ao mesmo tempo me agrada brincar com as sutis diferenças, como no título, ‘grão’ em português é ‘grain’, ‘grano’, mas também ‘muito grande’ por exemplo. Os ideogramas servem como grafismo para nós, funcionam como títulos para os fluxos, e escrevem um poema em chinês tradicional.

Já no tempo de finalização do poema, estava bem empolgado com ideias do neurocientista e filósofo português Antonio Damásio que resolve um problema que vinha desde a década de 1990 para mim e outros autores digitais. Como fazer a multimídia se tornar uma linguagem nova e que de fato integrasse os diversos media e linguagens que são usados na criação e recepção de duas obras? Philadelpho Menezes usou a palavra intermídia, eu cunhei a palavra intersenso, e finalmente peguei de Damásio a palavra Imaginação, e de Pierre Levy a expressão Ideografia Dinâmica. Tudo se encaixava e integrava. Para Damásio uma imagem no sentido mental, cerebral, é um cluster, amálgama, de diversos inputs sensoriais, mixados e sequenciados com inputs das memórias, de modo que lidamos dentro da nossa cabeça de forma integrada e descategorizada com imagens sejam visuais, sonoras, olfativas, táteis, proprioceptivas etc, quando pensamos, sonhamos… imaginamos.

E bingo, fugir da metáfora da página nas interfaces digitais era o sonho de praticamente todos os pioneiros e pensadores da informática, e meu também. Podemos ficar, por exemplo, com Theodor Nelson, que na década de sessenta cunha a expressão hipertexto, e que vai evoluir para hipermídia. Ele descreve também o que seria a transliteratura. Está destruído o espaço bidimensonal da folha impressa e aberto o espaço hiperdimensional dos links e nós. Se estamos no digital vamos abandonar a página do impresso e tentar trabalhar com fluxos de imagens como fazemos na mente e os softwares tem que se adaptar a isso. Eu hoje só uso páginas como véus, como respiros para a informação, o arroz nos pratos culinários. Mas fruição é a palavra, animação é a base da interface.

Managana, criado como software livre, serve então como ferramenta para a autoração, edição coletiva e também exibição e interação desses fluxos de imagens mentais, toda a sua estruturação parte desse pressuposto. E a poesia stritu sensu (textual sonora e visual) sente-se à vontade nesse ambiente, já que historicamente tem longa trajetória de contato com a música, artes visuais, matemática, enfim, outras linguagens e sistemas. Entretanto, o software vai bem além da poesia, cabe ressaltar que hoje usamos em audiovisuais interativos, instalações em museus e centros culturais, para publicação de revistas eletrônicas e integração com blogs e redes sociais.

Então aí está o Managana, estou no player para Windows, aqui no celular temos o player para ios e para android, temos um executável, um show time com interações sofisticadas para instalações com video mapping, integração com kinect, arduino, etc. Aqui, além da navegação pela obra podemos comentar, compartilhar, votar… e editar.

Lhes mostro a interface de edição do Managana, que tem um editor local e também web que agrega muita coisa do WordPress no sentido de ambiente de edição conjunta, com potentes ferramentas para a ‘programação’ dos fluxos imagéticos e suas interações, inclusive algoritimicas e entre dispositivos, transformando-os em controles remotos uns dos outros.

A estrutura do menu fala um pouco de sua organização, temos comunidades, fluxos, playlists, a ideia é a criação de paisagens mentais com essas playlists mixadas e sequenciadas numa espécie de meta time line e preparadas para delivery em múltiplas plataformas. E os dados são todos gravados em formatos abertos e padrão numa pasta que pode ser livremente manuseada.

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