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VIDEOPOESIA
 

versão 1: 1994

 

A utilização de monitores de vídeo para veicular mensagens poéticas é quase tão antiga quanto o surgimento do veículo. Com ênfase na dramaturgia, na interpretação visual de poemas ou mesmo na utilização de textos em movimento, videomakers sempre buscaram incorporar elementos poéticos na sua linguagem. Recentemente, uma nova possibilidade surgiu para a poesia visual com o uso de computadores dotados de recursos de processamento gráfico: a confecção de programações com poemas em movimento.

Esse tipo de videopoesia é a que tenho realizado com outros autores desde 1987. Tenho trabalhado em micros com seqüências animadas de texto que depois são exibidas na tela de videoprojetores – telões – em espaços públicos. Nada impede, no entanto, que essas programações sejam concebidas para a exibição em aparelhos de vídeo domésticos ou para exibição em salas de espetáculo.

Sete anos se vão desde as primeiras experiências com o Quarteto de Sopros. Depois realizei outras experiências como o Quadro Cinético, País e Novos Estudos. Nesse período a evolução das técnicas de desenho e animação em computador foi assustadora. Deixei para trás resoluções baixas de tela, quatro cores simultâneas e animações grosseiras em duas dimensões para hoje trabalhar com recursos que permitem altas resoluções, milhões de cores simultâneas e recursos sofisticados de animação em duas e três dimensões. Entretanto, o que mais evoluiu nesse período foi minha familiaridade com os elementos da nova linguagem poética que surge com o vídeo. À medida que fui experimentando e trocando idéias com outros poetas e videomakers, sofri transformações radicais na minha sintaxe poética.

O movimento incorporado ao texto é a principal contribuição que a linguagem do vídeo traz à poesia. Ele pode conduzir os sentidos das palavras, trazendo alterações sobre o resultado final de mensagens poéticas. Amplia a noção de tempo dos vocábulos e quebra a linearidade da leitura, revelando os textos segundo a programação do autor, com as palavras em movimentos distintos do tradicional de cima para baixo e da esquerda para a direita. Em meus trabalhos utilizei essa ferramenta para fazer com que os textos entrassem na tela – e estabelecessem contato com o leitor – de forma a privilegiar leituras inusitadas. Usei também alterações na velocidade dos movimentos. Por exigir reflexão junto com a leitura, fiz os videopoemas rodarem mais lentos que o usual para peças gráficas e assinaturas computadorizadas. Sempre que pude, introduzi a repetição na dinâmica das apresentações. O silêncio lingüístico traduzido em momentos sem texto e o retorno reiterado das palavras para novo exame, sistematiza a necessidade de se ler um bom poema mais de uma vez e de mais de uma maneira. O movimento repetitivo ressalta o caráter “mântrico” da poesia. Outro aspecto diferencial em relação à palavra impressa ou falada que a videopalavra oferece ao leitor é a possibilidade de metamorfoses: a mudança súbita de estado dos textos através de movimentos rápidos. Esse tipo de recurso faz da videopoesia uma linguagem potencialmente lúdica e surpreendente.

Texturas, cores e formas revestindo e fazendo fundos para as palavras permitem a superposição de elementos das artes plásticas no encadeamento sintático dos poemas. A videopoesia aproxima imensamente essas duas formas de expressão, tradicionalmente tão afins. A espacialidade dos poemas se torna premente nas programações. As palavras são objetos compostos e adornados segundo novas inspirações que se aglutinam ao sentido inicial do poema. Os textos têm que ser sucintos em função da legibilidade no monitor, sua maior espessura é horizontal, não mais vertical. Elementos gramaticais de ligação podem ser dispensados e substituídos por movimentos e posicionamento dos vocábulos na tela. Conceitos antigos na poesia como justaposição, analogia, áreas de irradiação semântica, podem ser utilizados/visualizados no espaço com facilidade. O uso de trilha sonora nas animações permite interseções com a música e mesmo com a poesia falada. Trilhas de suporte, interferências de ruídos, declamação sampleada, são possibilidades que o videopoeta tem para explorar.

Ao nível do impacto sobre o público potencialmente leitor, a videopoesia abre caminho entre pessoas sem hábito de leitura. A videopalavra alcança um público já estimulado visualmente, que reconhece com facilidade elementos da sua linguagem pelo hábito televisivo que tem. Além disso, os textos processados no computador abrem portas para a exploração de novos espaços de linguagem que surgem como desdobramentos tecnológicos da nova mídia: a criação de quadros cinéticos em paredes, a poesia multimídia em livros eletrônicos e a realidade virtual estão aí.

Dentro das balizas da nova mídia utilizada, trabalhei cada poema a partir de suas indicações para o translado à videopoesia. Fiz poemas pensando em videopoemas e adaptei poemas do papel para videopoemas. O importante foi conhecer a aptidão visual do texto. As programações que realizei se aproximaram e se afastaram das artes plásticas, numa espécie de namoro mal resolvido. Às vezes penso que o poema pode sucumbir às formas, texturas e cores, às vezes sinto que a palavra tem direito de se movimentar num espaço despojado de formas, quase zen. Usei pouco o áudio por privilegiar a inserção das programações em locais públicos, ruidosos por natureza, e por achar que devia ter mais dedos na exploração da nova mídia, expandindo aos poucos as novas interseções para avaliar melhor as implicações da linguagem. A única trilha sonora que fiz foi deliberadamente “incidental”, ela apenas marca climas dentro dos ritmos criados pelo movimento das palavras. A experiência que tenho diz que em locais públicos a falta de som não chega a incomodar, mas na telinha da televisão, em espaço privado ou de exibição incomoda profundamente.

Uma linha geral que tem me norteado acima da interpretação individual dos poemas, ou da exploração de novos elementos de linguagem nessa nova mídia é a exploração do anti-outdoor, que transmite emblemas poéticos camuflados na estrutura reconhecida como habitual pelo espectador da linguagem da propaganda visual. Esse embuste de linguagem, que a videopoesia permite, gera descompasso e estranhamento, quando da assimilação do texto. O objetivo é fazer com que a surpresa se transforme em desejo de assimilação mais profunda da mensagem.

Álvaro Andrade Garcia

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