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As mil e uma noites

Quando compro o jornal, descubro que levo uma vida bastante corriqueira enquanto escritor. O que leio ultrapassa qualquer idéia que tenho, por mais irreal que seja. Basta fazer um bom recorte dos jornais e reeditar As mil e uma noites. No Brasil, a realidade é cada vez mais pura fantasia. Acaba sendo desgastante suar a camisa e ver que a gente fica sempre para trás.

Recentemente me lembrei da eleição do presidente colorido. Após uma emocionante briga entre a foice e o martelo contra o príncipe, venceu o herdeiro do trono. O povo, com sua intuição verdadeira escolheu o mais preparado para governá-lo. Até aí tudo bem, só que depois as coisas se agravaram. Este não foi o happy end, mas o início de um conto de fadas infinitamente melhor que o meu, ou de qualquer outro escritor.

Para descansar da fatigante maratona cívica que o levou ao poder, o futuro chefe de estado, sua esposa e um casal de amigos voaram a esmo pelo mundo. Embarcaram num jato transoceânico, vindo de Genebra, cujo aluguél custou a bagatela de trezentos mil dólares, e se dirigiram a um arquipélago afrodisíaco do oceano índico, na costa oriental da África. Que autor poderia imaginar uma cena tão romântica? Dois casais em uma praia paradisíaca, onde até o top less não chama a atenção. Eu consigo, no máximo, vê-los elevando taças de Moët, brindando o país que ganharam de natal, enquanto o Falcon sobrevoa o Índico. Depois pensaria na panorâmica da janela do eleito, dando para as tépidas águas das Seychelles: uma praia de mar verde e areia branca e fina, adornada com palmeiras e amendoeiras.

Ainda assim acho que estaria me equivocando. A coisa parece muito mais deslumbrante e irreal. Passados alguns dias, o jato decolou dali, para descer no Vale dos Faraós, no Egito, numa rápida escala, para que a nossa excelência e amigos pudessem dar um passeio de barco pelo Nilo. O final do programa todos nós conhecemos. Férias corriqueiras, freqüentes em qualquer best-seller de segunda: uma estadia em Roma e Paris, com direito a ópera, passeios a castelos antigos, jantares em lugares famosos como a Brasseria Lipp.

Bem, depois disso aí descrito, absolutamente real como a miséria que nos afronta diariamente, penso se conseguiria continuar imaginando contos… se sou tão facilmente derrotado pela realidade.

Álvaro Andrade Garcia

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