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A TECNOROÇA
 

versão 1: 2006
publicado no jornal de poesia Dez Faces em dezembro de 2006

 

Vários autores contemporâneos pontuam a crescente velocidade que atinge nossa vida. Tudo se torna cada vez mais rápido a ponto de estarmos numa era onde a velocidade da luz é praticamente atingida com as conexões eletrônicas. Nossas extensões sensoriais midiáticas web conectadas e em breve exércitos de robôs e equipamentos de trabalho e manipulação à distância, inclusos aqui os guerreiros, estarão povoando a terra conosco.

Milhões já passaram pela experiência dessa humanidade cada vez mais ansiosa e agora cada vez mais deprimida. A ansiedade era para alcançar a velocidade desejável e a depressão é a constatação de que isso nunca ocorrerá. Surge uma velocidade tão rápida, que não nos apercebemos que ela se transforma em total imobilismo, num mundo cada vez mais revestido de texturas sem contornos, que deixa muitos atônitos e atordoados.

Essa ideologia absurda que acelera os ciclos industriais e de consumo, aumenta cada vez mais o descarte de produtos, serviços e pessoas. Fazemos cada vez melhor e mais para desperdiçar cada vez mais, para satisfazer desejos que não existiam há pouco tempo atrás. Somos o burro atrás da cenoura. E na ponta dessa indústria encontramos as novas tecnologias, a seu serviço. Cada vez mais rápido, cada vez mais conectado, cada vez mais tarifado.

Muitos falam de boca cheia da sociedade da informação, que teria vindo para substitutir a era industrial. Ora, não foi isso que aconteceu, a informação se tornou uma valiosa mercadoria, inesgotável e facilmente reproduzível. A indústria da informação tem impactos ecológicos menores que o de outras indústrias, em tempos de escassez de matérias primas, e força suficiente para exercer a dominação e submissão das massas ao status quo. Temos aí os mídia, uma espécie de classe à parte de pessoas que se ocupa em preencher espaços, páginas e mais páginas, telas e mais telas, com suas vidas-referência para os que não conseguem ser mais que um número-rosto na impiedosa urbe que se agiganta.

A pretexto de nos proteger (os artistas e os inventores) os defensores do copyright estão promovendo a maior usurpação de todos os tempos. Hoje, em escala planetária já estão na mão dos grandes conglomerados capitalistas os bens e meios de produção, e não satisfeitos agora têm a posse dos bens e meios mentais, os símbolos e linguagens usados em nossa vida cultural. Estamos vendo mais do que nunca a apropriação da mente. O copyright, não no sentido de remuneração do trabalho do autor, mas no sentido do controle e tarifação da circulação cultural, já se torna uma questão tão séria que surgem partidos políticos para combatê-lo em vários países.

A neurose do controle total está aí, a troca da liberdade pela ‘segurança’ é marca dos tempos atuais. Produzem-se conflitos e ameaças e também sistemas cada vez mais sofisticados e caros para nos proteger deles. O panóptico nos vigia numa espécie de grande irmão, surpreendentemente numa sociedade capitalista, e não como imaginado, num mundo stalinista. E o mais paradoxal é constatar a ineficácia desses meios para aumentar a segurança. Estamos sendo enganados, a violência é fruto inequívoco desse sistema que a alimenta, e finge nos proteger, com uma tecnologia que na verdade serve para nos controlar cada vez mais.

Vivemos nesse contexto, de globalização capitalista, da hiperinformação, da criação de demandas inexistentes e sua posterior tarifação. O que se gasta com impulsos em celulares, tv por assinatura e internet já compete em valores com despesas com itens antes considerados mais essenciais à vida como alimentos, saúde, educação e moradia.

Vemos a tecnologia gerar demissões em massa, automatizar procedimentos e exigir mão de obra cada vez mais especializada, gerando em pleno século 21 os enormes contingentes de pessoas fora de toda oportunidade de integração. Estamos vivendo a era das mega cidades, com a aglomeração de pessoas desocupadas, enquanto a tecnologia segue seu alucinante rumo, atrelada ao sistema.

Nesse contexto, temos que ver a tecnologia com bastante parcimônia e critério. Ela não é esse dourado inebriante que a mídia tanto nos vende e que muitos de nós, artistas, ajudamos a propagar, lidando com ela sem crítica e inovação. Ela não é uma locomotiva a nos puxar rumo ao futuro. Ela é parte integrante e importante de todo esse sistema de devoração, anal e acumulativo, como diria Freud sem hesitar.

Em tempos de eclipse de opções político filosóficas e estéticas para essas questões que nos afligem, dei-me a liberdade de imaginar uma proposta que contemplasse uma das soluções possíveis para lidar com as angústias diante do curso do mundo, ativar desejos vitais, num projeto em tese realizável. A idéia aqui é partir de uma proposição e costurar através dela um novo funcionamento possível para a humanidade, ou pelo menos para uma parte dela, disposta a experimentar essa opção. O exercício não tem a pretensão de se tornar um manifesto ou uma proposição normativa, mas a de construir uma opção válida, ainda que no plano literário, nosso grande espaço de reconhecimento do novo e da liberdade. Seguir nessa direção já seria suficiente para dar ânimo à vida em condições tão adversas.

Existem várias formas de mudar o rumo desses acontecimentos, em pequenas comunidades, países e até em escala globalizada. Podemos usar toda essa tecnologia que foi criada em nosso benefício, para dar voz ao que é humano. A técnica não tem em si nenhum viés, como já nos disse Walter Benjamim. É sua utilização e apropriações pelos homens que a tornam vital ou mortífera.

A esperança está na articulação crescente entre comunidades que se organizaram para romper essa roda veloz que a todos devora. No plano mental do ciber espaço, temos que nos engajar na construção do software livre, que é mais que apenas software gratuito, mas sim uma nova forma colaborativa de construir linguagens e soluções, que privilegia a disseminação e a apropriação do conhecimento desenvolvido. Temos que investir em dados que possam circular livres, como nos propõe Ted Nelson com a transliteratura e o transcopyright. Temos que integrar isso à economia solidária e a novas formas de produção agro-artesanais, de moradia e transporte baseadas no uso intensivo de tecnologia não poluente.

No Brasil, onde ainda temos vastas extensões de terra desabitada e devastada pela passagem dessa nuvem de gafanhotos chamada ‘modernidade’, podemos gerar um retorno ao campo para parte da população que hoje superpovoa nossas metrópoles. As cidades ficariam para os que gostam imensamente delas, mas estariam menos inchadas, mais cordiais e poderiam ser visitadas pelos tecnoroceiros, em busca de trocas e lazer.

Temos que inventar uma nova reforma agrária. Uma que não ocorreria simplesmente dando terra e condições para as pessoas plantarem e viverem para o sistema vigente. Isso nunca vai funcionar, como já tem sido demonstrado. Como ter a ilusão de que a competição entre uma pequena cooperativa de produtores de milho orgânico poderá vencer a competição com um grande conglomerado da agroindústria? Temos que aceitar essa derrota no plano da competição e partir para o estímulo à colaboração. Pão para o corpo e idéias para a mente, alimentos saudáveis e uma nova cultura de paz, numa velocidade mais sincronizada com os grandes tempos do planeta e da vida.

A minha experiência de vida mostra que isso é plausível. Quanto mais conheço a casa da roça e sua ecologia intrínseca, mais percebo que a solução está debaixo do nosso nariz. Temos que juntar mundos que aprendemos a considerar inconciliáveis As conexões em rede distribuída, as possibilidades da cultura se universalizar chegando aos mais distantes lugares, a integração de formas amenas e arcaicas de vida e produção com as mais sofisticadas tecnologias podem sim colaborar no sentido de preservar a vida e o planeta dessa veloz maia que ilude a humanidade nos seus últimos séculos.

Os desafios são enormes. O software livre é combatido pelas grandes com uma avalanche de processos judiciais, a economia solidária, hoje apoiada pelo estado, será combatida, pois vai colocar em cheque as injustas tarifações e os impostos, já que as pessoas passam a trocar entre si diretamente os insumos que necessitam para viver, os latifundiários vão continuar a boicotar a distribuição justa da terra.

Como já coloquei num texto anterior, Multimídia Imaginação e Poesia Zen, a literatura deve se engajar e contribuir na construção dessa nova cultura. “Na era da informação, a poesia deve entrar nos computadores e se ligar na rede, mas é preciso ter em mente que o poema não está ali para hiperestimular moribundos. O poema deve imaginar como fazer as pessoas mais vitais. O poema deve saber dar uma banana a tudo e instituir o silêncio que todos precisamos ouvir.”É a hora de criar a nova voz sintonizada com as comunidades empenhadas na construção colaborativa e na recolocação das questões da humanidade.

Antes do planeta incinerar, com o calor, a violência e a exclusão que são produzidos de forma tão intensa.

Álvaro Andrade Garcia

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