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KOOYANISQATSI E EU
 

Memória de um filme que marcou para o jornal 10 Faces.

Kooyanisqatsi: life out of balance (vida em desequilíbrio)
direção de Godfrey Reggio, trilha de Philip Glass, 86 minutos, 1982

por Álvaro Andrade Garcia

Quando uma imagem vale mais que mil palavras ou seria, quando uma imagem suscita mais de mil silêncios, ou talvez fosse assim: mil imagens mostram uma mesma palavra.

Vi e ouvi Kooyanisqatsi pela primeira vez por acaso. Estava em São Paulo, vivendo um conturbado momento da minha vida. Entardecia, eu caminhava pela Augusta, andando a esmo, quando vi o cartaz do filme e resolvi entrar no cinema. Eu tinha um bom motivo para encarar aquela palavra entoada no filme de forma mântrica… kooo yaaaa nis qatsi. Ele foi escolhido o melhor filme pelo juri popular da Oitava Mostra de Cinema de São Paulo, naquele ano de 1984.

O que se passou naqueles 86 minutos, diante de pura música e imagens em sucessão, o tempo todo com a temporalidade alterada. Gravações quadro a quadro durante longos períodos de tempo (time lapses), slows e fasts, um crescendo de velocidade nos movimentos, pausas precisas em slow sobre as faces das pessoas, o sentimento através do gesto facial, e voltavam os engarrafamentos, a vida in the box da metrópole, seus óbvios movimentos, repetitivos e pixelatadados. Uma sinfonia com acordes e arpejos acompanha tudo isso. Um som preciso e totalmente integrado com as imagens. Músico e diretor trabalharam anos juntos nisso.

Sai do cinema em estado de choque. Já era início de noite. E as luzes da cidade, o trânsito, os prédios, tudo me jogava de volta ao filme. Era como sair de uma história que se passou na tela e encontrar ela outra vez ao seu redor, por toda parte, um contrário do que acontece em Rosa Púrpura do Cairo. E se eu já estava desequilibrado ao entrar, sairia completamente fora do eixo. Fui direto para a rodoviária e embarquei para Belo Horizonte, como se isso fosse resolver alguma coisa… e, bem, nunca mais fui o mesmo.

Há filmes assim, livros assim, discos, pessoas. Há momentos em que imagens nos despertam, como se fossem a peça que faltava para fechar o quebra-cabeça, catalizam, transformam cobre em ouro, adensam um pensamento que ainda era confuso e esparso. Depois de passar por elas, já somos outra pessoa, mesmo sem compreender por quê ou mesmo como.

Depois, revi o filme diversas vezes ao longo das décadas seguintes. E posso dizer que aí, além de me transformar, ele virou uma influência, de nova linguagem, sobre dizer o essencial. Como um filme sem diálogos ou texto podia dizer tanta coisa? No final do século 20? Persigo várias ideias cinematográficas que aprendi no filme, penso e escrevo sobre a experiência de viver nesse mundo urbano, nas grande metrópoles contemporâneas, imersos em tecnologia, cada vez mais distantes do ritmo natural.

Sei que os americanos ainda não estavam tão gordos, nas inúmeras cenas de rua e metrô. De resto, o enredo continua bem atual, de 1982 a 2011, as imagens já estavam todas lá: as centrais nucleares, as minas exaurindo a terra, a metrópole, os engarrafamentos, a vida in the box da grande maioria da população mundial.

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