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O AGENTE IMPERIAL,
DE T. N. MURARI
 

Sujeito de outra história

Kim, arauto do imperialismo, volta à ação nas páginas de um pastiche da obra de Rudyard Kipling

O Agente Imperial, de T. N. Murari
Editora Record, 400 p.

Houve uma vez uma literatura que encantava ingleses e indianos, acima das distinçðes entre senhor e vassalo em pleno jugo britânico na India. Passam os anos, mudam as relaçðes políticas, ainda assim a literatura é formulada como objeto de distraçóo. Eis aqui O Agente Imperial, romance que se anuncia como a releitura de uma das obras de destaque do império de Sua Magestade. Kipling, o consagrado autor de Kim, publicou seu livro em 1901 quando se dizia que o sol jamais se punha nas terras imperiais. Oitenta anos depois, o indiano T. N. Murari ressuscita o personagem e a colorida ambientação oriental para um acerto de contas com suas preferências. Como tantos outros leitores adolescentes, Murari viveu as aventuras de Kim em sua peregrinação ao lado de um místico, enquanto dava uma mãozinha à contra-espionagem britânica. Agora, em O Agente Imperial, trata-se de mostrar o travesso Kim na idade adulta, dividido entre suas origens inglesas e sua criação como indiano nas ruas de Lahore.

Segundo o gosto da nossa época, a ideía de Murari é dar continuidade à história de Kipling e revirar o ponto de vista do narrador tradicional. O personagem-título é recriado em suas ambigüidades, desempenhando o estranho papel do ocidental com aparência de indiano. A narrativa se situa em período imediatamente anterior à libertação da India, o que serve de pano de fundo adequado à crise de consciência do amável Kim. Perseguimos assim as quatrocentas páginas de aventura linear em busca de algo que Murari, enquanto leitor de Kipling, insinua chamar de contentamento perdido. Não encontramos essa quintessência na trama e na revisão ideológica promovida por Murari. Por certo, isso não vai passar de detalhe à massa de seus leitores.

Em nota do autor, sabemos que as aventuras de Kim o fascinaram a ponto de querer ser o próprio personagem. Jornalista indiano com formação britânica, Murari é o oposto do herói que tanto amou. Kim não deixou de ser, nas páginas de Kipling, um saboroso agente do poder estrangeiro, que uma literatura de verve usou para consagrar o ponto de vista dos poderosos. Anos depois, o herói revisitado por Murari perdeu a graça e a convicção da época que representou como produto bem acabado. A sinceridade de Murari para com o herói de sua infância não salvou a empreitada a que se propôs. Kim não convence mais, como podia fazê-lo em Kipling.

A narrativa de O Agente Imperial nos mostra Kim a serviço do coronel britânico que o protegia. Adulto, ele deve atender às tarefas que lhe cabem como agente que se infiltra nas hostes dos inimigos nacionalistas. Sua alma indiana entra em dissonância com seu corpo inglês. O amor da exuberante e desejável Mohini e o interesse na defesa do injustiçado Anil Ray terminam por levá-lo a conhecer os segredos dos conspiradores. Kim deve decidir se entrega as informaçðes ao coronel ou se faz uma opção pelo sonho da libertação e se cala. A narrativa nos leva a essa espécie de conscientização que faz de Kim o sujeito de uma outra história.

Leitores desavisados não percebem que o dilema de Kim é uma coisa velha. Ficou para trás a moral da história, que pretendia virar o ideologia tradicional do romance com um pequeno ajuste operado pela crise de consciência e a opção pelo lado ideológico correto. Há quinze anos ou mais, esse tipo de livro teria um apelo irresistível. Acontece que não é possível falar de crise do personagem, resguardando intacto o aparato de narração. A virada ideológica do personagem Kim não é acompanhada de uma crítica do narrador convencional à la Kipling. O livro de Murari escapa do tom panfletário, seu herói não exagera nos tons nacionalistas e é só. O estilo de Kipling é reproduzido sem brilho, dando continuidade à falsa onisciência do narrador que se basta a si mesmo e mantém a narrativa sob controle.

A indústria que conta histórias não se cansa de importar novidades da última safra. Livros menores são levados ao mercado, com pompa e circunstância, em nome de um certo modelo de eficiência. A literatura fica de fora, mas a literatura é o que importa menos, não é mesmo? A intensa proliferação de histórias ocupa espaços em livrarias e estantes. Histórias cansam em sua monotonia do já lido. A arte do best-seller, sem arte da narração, parece ser o penúltimo degrau no delírio do mercado. A rotineira tarefa de alinhar palavras umas após outras alcança o refinamento de sua banalidade. Em O Agente Imperial, viramos cada página com a sensação de que o imaginário envelheceu e pede urgente que Deus o mate e o Diabo o carregue.

Álvaro Andrade Garcia e Delfim Afonso Jr.
15/9/1990

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